terça-feira, 16 de agosto de 2011

Engasguei-me com a pipoca ou Caiu manteiga na minha calça ou Vida

**************************Atenção! Talvez contenha spoilers.*************************



Tenho outro texto pronto para publicar, mas como o tempo urge e ele provoca esquecimentos deixemos este passar na frente.

É sabido (por mim, através sabe Deus de que fonte, agora não lembro), que em sua estréia em Cannes esse ano, o filme A Árvore da Vida (The Tree of Life, 2011) de Terrence Malick teve uma recepção dividida entre aplausos e vaias. Creio que tem sido assim ao redor do mundo, a julgar pela reação de pessoas próximas a mim. Enfim, só essa tamanha divisão de opiniões já mostra a força de tal filme e que ele não é pouca bobagem.

Para começar... opa, uma breve interrupção, perdão, é que tem uma senhora meio rechonchuda do meu lado que não para de mastigar ruidosamente sua pipoca e remexer dentro do saco..., pois bem, pra começar digo logo que o filme é lindo. Alguém me perguntará por que, Allan? Ou ninguém me perguntará. Enfim, em primeiro lugar o filme é lindo por se tratar de cinema de verdade. Isso mesmo. Cinema. Aquela arte que chamam de sétima.

Malick consegue levar ao extremo a capacidade inerente ao cinema e característica que marca essa arte que é a de expressar recorrendo a imagens. À junção de imagens que dão forma, em conjunto, a um sentido maior. Que se interligam entre si pra contar uma história. No caso de Árvore da Vida a história é adivinhe só, a vida! Sim, a vida! Com esmero o autor faz uma viagem através do tempo, da história, da vida em si. E não por mero deleite visual. Claro que existe muita beleza nas imagens fotografadas para o filme, que pelo que vi nos créditos (sim, eu vi os créditos até o final) advêm de várias fontes, mas essas imagens servem a dois propósitos que na verdade é só um: a capacidade de se mover entre um macro universo (e aí deve se pensar na imensidão do universo mesmo) e um micro universo (que é a história da família central do filme).

E é catapultados dum passado recente (anos 40-50?) para um passado distante e depois para o presente, que nos guiamos pela história. E a história não é só sobre uma família americana e seus problemas internos. A história é sobre todos nós. É sobre a vida. Sobre tudo que respira e sente, e isso implica claro, mostrar a origem da vida (a lava que és esfriada pelas águas do oceano serão palco da criação da vida). E o que teriam a ver os tais dinossauros que de repente aparecem, ora, não foram eles seres vivos? Não tiveram eles que passar seu tempo nesta bela habitação que é este planeta. Acho ainda que os animais no filme quando aparecem, e principalmente os dinossauros, quando aparecem são um grande contraponto a nossa própria existência enquanto animais que possuem a incrível (?) capacidade de pensar. É meio que dizer: ei, estamos todos no mesmo barco, minha gente, cada um no seu tempo. Enfim, isso é pra dizer de forma bem clara que nenhuma daquelas imagens está ali à toa! Nenhuma! Tudo faz parte de uma bela tentativa de colocar em uma película esse grande emaranhado que é a vida.

Levar a vida a um filme me leva a outro ponto... opa, outra interrupção, tem um casal na fileira de trás que não pára de falar, estão até gargalhando, será que tem alguma parte engraçada no filme que perdi?... sim, outro ponto: a câmera livre. Alguém pode argumentar que a câmera que fica se movimenta quase que o tempo todo durante o filme é algum tipo de artimanha para esconder um filme vazio, seria algum tipo de malabarismo para nos ludibriar? Pois bem, creio que não.

O filme, além de outras tantas milhares de leituras que podem ser feitas, possui para mim uma colocação bem explícita em relação à existência da vida: o acaso. Mas não um acaso qualquer. Para muitos a vida surgiu de um acaso, como é por acaso uma moeda minha cair dentro de um bueiro e eu me abaixar para tentar pegá-la e ao levantar dar de encontro com aquela que venha a ser a mulher da minha vida. Essa ideia da liberdade dos acontecimentos sucederem se associa aqui a ideia de livre arbítrio que o homem possui para fazer suas escolhas. Formar-se-ia assim uma dupla libertária sobre a qual ninguém pode agir de forma a obrigá-la a ir em tal direção. Mas não seria a própria existência de uma possibilidade que realmente venha a se concretizar uma forma de fazer cessar essa liberdade? Então, não seria o acaso e o livre arbítrio tão arbitrários quanto na ideia de que existe um ser superior que nos criou porque quis fazê-lo? Então já que a vida é essa contradição entre acaso e arbitrariedade do acaso, Malick opta exatamente por deixar sua câmera livre, mas sob sua arbitrariedade, ou seja, não à toa, captando qualquer coisa que apareça como pode parecer às vezes. Dessa ideia surge, em minha opinião, algo bastante interessante (para um filme demais interessante), ele consegue tecer uma estética do documentário dentro de uma história que sabemos fictícia, mas que poderia muito bem ser real, já que se trata da vida, para depois mesclar o trabalho dos atores a sua captação da vida acontecendo. E nada mais significativo disso pra mim do que a cena do garoto ainda pequeno que decide enfrentar a escada, ele a enfrenta com um olhar curioso, e começa a subi-la, existe coisa mais difusa entre documental e fictício do que isso? Talvez exista, mas essa me marcou bastante.

Por ser puro cinema esse filme é belo. Essa minha sentença me leva de volta às opiniões contraditórias que falei no inicio do texto, já que a minha é favorável ao filme. O que parece acontecer é que as pessoas estão meio cegas. Talvez isso se deva ao fato de esfregar os olhos durante as sessões de cinema com as mãos cheias de manteiga da pipoca, deve ta atrapalhando a visão. Ou talvez elas estejam encarando muito o sol diretamente. Não sei. O interessante é que com tanta coisa que se repete sempre que utiliza sempre a linguagem cinematográfica pra falar a mesma coisa do mesmo jeito, parece que muita gente estranha quando aparece algo que se assemelha realmente a cinema. Não que não seja bom comer pipoca assistindo a um filme pra se distrair (se bem que não costumo comer quando vejo filmes), mas acho que ta faltando lembrar que cinema não é só isso. Que existe arte também que é cinema. Que um filme de vez em quando não serve só pra matar o tempo, mas quem sabe pra ganhar algo com seu tempo.

É costumeiro, pra que acompanha cinema, saber os nomes dos diretores favoritos, conhecer os filmes desse diretor e coisas do tipo. Talvez fosse interessante também pra quem apenas vai ao cinema pra ver qualquer coisa, sem se importar em saber quem é o diretor ou o que ele já fez na vida, tomar nota de quem são os diretores dos quais já viu algum filme que abominou. Assim, seria mais fácil evitar um filme dele quando entrasse em cartaz. Evitaria desperdiçar sacos de pipoca que podem virar da sua mão enquanto você dorme na poltrona. Você ainda pode se sujar com a manteiga, de repente. E foi pensando nisso que eu imaginei alguns diretores dos quais quem quer apenas comer uma pipoquinha deve passar longe:

1 – David Lynch: nem pensar, muito absurdo.

2 - Apichatpong Weerasethakul: muito lento.

3 - Lars von Trier: não curto mais tanto assim, mas entra nessa lista aí.

E dos que já morreram e, logicamente, não mais produzem filmes novos, mas sempre existe aquela possibilidade de você topar com um DVD por aí, ele chamar atenção, mas é bom evitar:

4 - Stanley Kubrick: com 2001, uma odisséia no espaço, que me fez lembrar muito esse filme de Malick, talvez por ter cenas de espaço, mas muito mais certamente por ter levado ao extremo a capacidade criadora para utilizar o cinema em sua grande força. Cuidado com esse filme, certamente pode cair pipoca em cima de você durante uma cochilada.

5 – Luis Buñuel: meio doidinho esse senhor também, mas de repente você pode até dar uma risadinha de vez em quando, quem sabe.

Com certeza há mais, mas já estou com sono agora e vou aproveitar que o pessoal da fileira aqui de trás se calou pra eu poder dormir. Por ora, é só o que tenho a dizer, se surgir algo, acrescento.

P.S. Pra quem não entendeu, a lista é ironia. É bom dar uma visitada nesses diretores, vai que de repente você gosta.

P.S.² Acho que o mais importante é que a vida continua e o mundo continua rodando e que venham mais filmes pra gente amar e odiar.

P.S.³ Falta se levar a sério primeiro, e depois levar a sério o cinema ou na ordem inversa.


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