**************************Atenção! Talvez contenha spoilers.*************************
Lá, no agora distante, mês de Fevereiro de 2011 estive em São Paulo, capital. Naquela imensidão de gente apressada e horizontes expandidos existiam, claro, inúmeras telas brancas exibindo uns tantos filmes que não passavam – nem passarão - por aqui por esta cidade onde habito, Belém do Grão Pará. Pois bem, deu-me vontade de assistir ao filme Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas (Loong Boonmee raleuk chat, 2010) de Apichatpong Weerasethakul – diretor também conhecido como Joe.
Lembro-me de ter comentado com meus companheiros de viagem que gostaria de assitir esse filme e disse o nome do mesmo, talvez eu tenha dito o nome em inglês ou lido diretamente da internet, enfim, o interessante foi o espanto de alguém ao ouvir o nome do filme: Que isso?!
Então, acabou-se minha curta estada em terras do Sudeste e não fui ver o bendito filme – e não fiz tantas outras coisas, como assitir ao Tetro, do Coppola.
Do Joe eu já havia visto um outro filme, Síndromes e um século (Sang sattawat, 2006), lembro de ter gostado. Sobre Tio Bonmee, eu sabia que ele havia ganho a Palma de Ouro em 2010. Ganhar festivais se não indica que um filme é bom pelo menos cria uma certa vontade de assitir a tal para que se possa formar uma opinião própria.
E foi em agosto, mais de cinco meses depois de estar em São Paulo que pude finalmente assistir ao filme. Numa tela na sala de casa. Tentando escurecer ao máximo a sala para que ela faça lembrar um cinema, aquele que nos isola do mundo por algumas horas. Deslocando meus ouvidos e olhos das distrações ao redor, como os sons que produzem meus familiares. E eis que tenho essa sensação que tenta se materializar em uma pergunta: Por que eu demorei pra ver esse filme? Já havia sentido isso antes, e isso é uma coisa boa. Dessas que fazem valer à pena amar o cinema.
O espanto da pessoa quando falei o nome do filme talvez tenha vindo do comprimento do título, ou do nome tailandês do Tio Bonmee. Tal estranhamento talvez seja amplificado quando passa-se ao filme em si – e talvez meu interlocutor tivesse sentido o mesmo ao ver o filme. Numa película onde fantasmas, macacos fantasmas e representações de vidas passadas habitam a mesma dimensão que os seres humanos causa a surpresa que nos envolve quando o insólito invade o natural. Porém, o grande alcance da arte nesse filme é fazer com que esse insólito consiga sobreviver com naturalidade em nosso meio, em nossa visão, em nossos ouvidos. A aceitação exigida do espectador para que se possa fruir da obra é a mesma exigida dos personagens do filme. Primeiro eles se espantam, mas depois se acostumam.
Ao pensar nessa convivência do sobrenatural com o natural é impossível não pensar na própria Amazônia com seus mitos e lendas que coabitam junto aos seres humanos – interessante visitar a tese de doutorado do Professor e Poeta João de Jesus Paes Loureiro, que trata exatamente desse mundo no qual uma fina membrana – sfumato - separa o real e o imaginário, num jogo que se faz necessário para a sobrevivência do homem diante da natureza, nas suas incansáveis tentativas de explicar a imensidão ao nosso redor e a nossa pequenês diante disso tudo.
Nessa convivência entre real e imaginário, a contação de histórias e causos possui papel fundamental na formação, difusão e transformação de mitos e lendas. E a oralidade, magnânima nessa perpetuação das histórias, parece transbordar do filme – ou do que seria a essência de uma história – para o título do mesmo. A denominação da obra possui a meu ver a capacidade de identificar esse Tio Bonmee como um contador de histórias, que pode recordar suas vidas passadas e contá-las, mas sem deixar isso de forma explícita e mais especificamente deixando ao cargo de nosso autor Joe o papel de contador de histórias. O Bonmee pode passar adiante, antes que chegue a hora de sua morte, conhecimentos sobre a coexistência de mundos diferentes, de seres sobrenaturais, de um lado espiritual do ser humano, que parece ser cada vez mais apagado da vida ocidentalizada. Dessa vida que só enxerga o que pragmático e que esquece da beleza e da riqueza que as coisas podem ter sem necessariamente serem explicadas e reviradas e dadas como conhecidas.
Creio que exista nessa demonstração de fatos sobrenaturais uma metáfora bem especial relacionada ao que acredito ser o cinema. Mais do que um lugar, escuro, isolado, onde nos enfiamos para poder nos distanciar dos estresses da vida moderna, da chatice do trabalho, o cinema é para mim – e para muitos outros, ainda bem – um espelho do mundo (sim, aqui penso e me inspiro na ideia de Proust sobre o artista e sua capacidade refletora, citada no Em busca do tempo perdido), que serve não para que nós nos afastemos desse mundo e sim para que nós possamos enxergá-lo e sair da sessão de cinema com algo novo, algum crescimento interno que possa ainda ser levado para os outros de diversas formas. Claro que às vezes é bom apenas sentar numa poltrona para assistir um filme só pra distrair, mas o cinema enquanto arte tem uma função maior, e assim como a sobrenaturalidade no filme, serve como esse elemento que nos faz enxergar no estranho coisas que possamos trazer para o mundo natural.
O natural, para mim, dentro do filme de Joe é transmitida de forma bem clara pela forma como ele decide enquadrar quase que o filme em sua integralidade, num plano mais geral, que deixa os personagens, que desenrolam seus diálogos, a vista de todos, numa ação única. E é nessa generalidade da vida que se insere, sem pedir licença e de forma natural, o insólito: os fantasmas, os macacos fantasmas. Um plano que poderia ser superficial, não conseguindo chegar a pronfudidade dos sentimentos das personagens deixa claro que o que se passa diante de nossos olhos é inerente a todos os seres humanos – o espanto, a saudade, o amor – e isso tudo sem a necessidade de uma câmera intransigente que não sabe se esconder e prefere aparecer mais que as personagens.
Chegando a essa invisibilidade da câmera chega-se a invisibilidade do autor. Joe consegue deixa as personagens andarem como se tivessem vida própria. Eu não consigo sentir a presença dele no desenrolar das cenas. Não consigo visualizar interferência dele nos caminhos que as personagens escolhem seguir. Eu sei que ele existe, que são suas as escolhas estéticas, porém não o vejo atuar atrás da sua câmera indicando o que deve acontecer, como um deus. E ainda, parece-me que ele, Joe, é obrigado a mostrar aquilo que as personagens, seres vivos durante aqueles minutos de exibição da película, o levam a mostrar, existe aí, então, uma sensação de completude: aquilo que é mostrado é o que deve ser mostrado e nada mais.
Mais do que nunca, a forma torna-se mensagem. E não apenas uma história é contada, mas a forma, a beleza conta a si mesma e relaciona-se com a metáfora que falei a pouco sobre o cinema enquanto essa forma de arte que reflete o mundo, pois temos aqui o mundo refletido não só na existência dos seres humanos e na existência dos seres sobrenaturais, mas acima de tudo temos a forma do filme que fala sobre a vida, que se enche de vida. Não há como não achara isso belo. Não há como não esboçar um sorriso. Não há como não ouvir esse causo e não ficar querendo mais.
O superficial nos deixa chegar ao que é profundo. Num dado momento da história, a esposa falecida de Bonmee diz algo do tipo 'o céu é superestimado'. Mais à frente, quando Bonmee parte junto com o fantasma de sua esposa, sua cunhada e o seu sobrinho, para sua última caminhada, eles chegam a uma caverna. Eles entram nessa caverna. Ao passar por uma parede, vemos várias pedras brilhantes que reluzem coladas à estrutura milenar rochosa. Depois que as personagens passam por ali, ficamos ainda um pouco de tempo com a câmera estática, encarando aquela parede. E o que aparece diante de nós é o céu. Nada mais, nada menos. O céu dentro da caverna. O céu num lugar fechado. O céu é superestimado. Ele pode aparecer assim, em qualquer lugar. Assim como a beleza aparece assim, quando menos se espera. E é lindo sentir quando ela aparece. Mas é preciso estar aberto para senti-la. Atento. Eu agora espero pelo próximo filme que eu irei enrolar para assistir. Esperarei ter tão grata surpresa. Esperarei encontrar o céu – ou o inferno quem sabe?
P.S.¹ Pequena consideração: o corriqueiro, o cotidiano, quando representado por um determinado tempo na tela, talvez possa parecer uma chateação, mas creio existe sempre algo a ser mostrado e além do mais precisamos ver bastante o que é natural para que o insólito possa irromper na tela.
P.S.² O que menos importa é o filme ter ganho Cannes, importa mais o que eu ganhei com ele.

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