segunda-feira, 6 de junho de 2011

4 parágrafos e uma exclamação. sobre 'Um Lugar Qualquer'



**************************Atenção! Talvez contenha spoilers.*************************


O filme ‘Um lugar qualquer’ (Somewhere, Sofia Coppola, 2010) tem uma mensagem. Ou talvez mais de uma. O tema da estrela de cinema vazia e sem vida não é novo. Ao longo de seus 97 minutos o filme tenta chegar ao homem por trás da estrela famosa e lá encontra um ser vazio, completamente entregue ao mundo material, das aparências. A mensagem talvez seja uma crítica ao sistema que transforma as pessoas em meras imagens. Ou às pessoas que se deixam entregar a essa metamorfose.

A partir dessa ideia da mensagem (crítica), o filme (forma) alcança certa coerência com o que aparenta ser sua mensagem. O vazio do ser humano exposto na tela a todo o momento transborda nos enquadramentos que deixam a pessoa diminuída pelo que está ao seu redor. Os longos planos que mostram ora o rosto do personagem, ora uma paisagem (com ou sem pessoas) atentam para o fato de que nada acontece naquela vida. O tempo simplesmente flui, e as pessoas apenas existem.

O filme encontra ainda outra coerência: com o que se espera ver ao entrar numa sala de cinema que exibe filmes alternativos, ou seja, um filme alternativo. Mas talvez nessa coerência (longos planos, cenas de contemplação) resida algo perigoso, a falta de surpresa. Estamos ali para ver um filme ‘alternativo’ e temos essa expectativa alcançada. Saio de lá com uma sensação estranha.

Buscando desconstruir, ou quem sabe lançar luz sobre esse lado vazio do astro de Hollywood (a figura do herói desmoronando), o enredo do filme acaba se encaminhando para a formação de um novo herói. Ao ator ressurgido das cinzas de sua vida vazia. Abandona seu carro luxuoso. Caminha. Solitário. Seu rosto agora toma a tela pra si. Sem mais vazio ao seu redor. Um sorriso no rosto. Rumo ao nada. Numa estrada que vai a um lugar qualquer. Ou aí reside uma grande ironia (vimos o herói do cinema se transforma em um outro herói de cinema) ou mais um grande vislumbre de coerência (um final feliz?).

Ah, a coerência!

Um comentário:

  1. Eu estava lá. Eu vi. O Vazio acontecendo e se desfazendo. Uma sensação de que o herói somos nós. Queremos aquela vida pra nós ao mesmo tempo que sentimos pena dele. E no final, vemos uma esperança pra nós mesmo, com a partida do herói.

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